Esportes
Trio quarentão do Fluminense desafia o tempo: o que explica a longevidade de Fábio, Thiago Silva e Hulk?
Com rotinas, características e necessidades diferentes, atletas acima dos 40 mostram como genética, cuidados e controle de carga ajudam a prolongar a carreira. Goleiro completa 46 nesta quarta
| GLOBOESPORTE.COM / JéSSICA MALDONADO
— Fábio tem que ser estudado. Muito tempo de carreira e jogando. Para mim, está muito próximo do fim. Não penso em jogar por muito tempo, correr atrás dos meninos não é fácil.
Assim, Thiago Silva, zagueiro mais velho da Série A, definiu o companheiro Fábio, que completa 46 anos nesta quarta. Na ocasião, o defensor indicou seus últimos capítulos como jogador de futebol aos 42 anos, recém-completos.
Afinal, atuar em alto nível tendo mais de 40 anos não é para qualquer um. Há quem tenha o biotipo privilegiado e precise realmente de uma investigação sobre como isso é possível hoje em dia, mas há aqueles que relutam em se despedir e prolongam a carreira, ainda que com sacrifícios.
E o Fluminense é especialista quando o assunto é longevidade. Afinal, o time carioca é o único clube da elite do futebol nacional a ter um jogador com mais de 40 anos. Mais do que isso: são três. Titulares, atuando os 90 minutos e decisivos.
O goleiro Fábio (46), o zagueiro Thiago Silva (42) e o atacante Hulk (40) compõem o "trio quarentão" do Flu, que é semifinalista da Libertadores e quarto colocado no Brasileirão.
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Mas o que faz jogadores nessa idade atuarem em alto nível? É privilégio da natureza, destino ou trabalho duro?
Para a frustração de quem espera uma receita mágica, ela não existe. Depende da individualidade, histórico e até do DNA de cada jogador. No caso de Fábio, porém, há um aspecto importante para explicar por que ele segue como um dos jogadores mais decisivos do Fluminense em 2026: o baixo número de lesões ao longo da carreira.
— Pontos que podemos considerar são o baixo número de lesões na carreira e o fato de ter permanecido por longos períodos em seus clubes, onde conseguiu ter o mesmo padrão de treinamento com continuidade. Toda vez que o atleta troca de clube, sofre com novas adaptações. Muitas vezes é nesse momento que ele se machuca ou perde rendimento — explicou Luiz Felipe Sinforoso, gestor de performance de atletas, com passagens recentes por Vasco e Botafogo, e hoje especialista em alto rendimento de jogadores como Philippe Coutinho, hoje no Santos, e Gregore, do Al-Rayyan.
Fábio é o mais experiente do elenco tricolor e, consequentemente, o atleta mais velho a disputar uma Libertadores, feito que alcançou em 2026. Ele também alcançou o mesmo feito na história do Brasileirão.
"É treino de campo e gelinho"
Mas, se hoje ele colhe elogios por tudo que representa para o time e para a torcida, no início a sensação foi de insegurança com sua contratação, em 2022. Justamente pela idade.
— Surgiu no mercado o nome do Fábio. Ele (Mário Bittencourt) me chamou na sala dele e disse: “Fábio. Vou trazer ele'. E eu fiquei: “como assim, presidente?'. 41 anos... Preocupa qualquer pessoa. Na intensidade do futebol hoje, ainda mais o meu trabalho que é com intensidade. Na época, eu fiquei preocupado. O presidente trouxe, ele chegou e conversei com ele. Uma semana depois eu chamei o presidente na sala: “Quero te dizer que o cara é um fenômeno e tem lenha para caramba para queimar. Se você quiser renovar com ele, pode renovar' — contou ao ge o preparador de goleiros do Fluminense, André Carvalho.
E, embora os especialistas no alto rendimento defendam um sono reparador, recuperação e boa alimentação como "regra de ouro" para uma boa performance, o goleiro parece cometer alguns desses pecados. Fábio tem o hábito de treinar alguns dias em jejum, dorme cerca de quatro horas por dia, é fã de energético e passa longe da fisioterapia. "É treino de campo e gelinho", brincou o treinador.
"Acha que estou nesse nível porque me chamo Thiago Silva?"
Thiago Silva é segundo no top-3 tricolor. Ao contrário do goleiro, que já disse ter lenha para queimar e cumprir o contrato até 2027, o capitão dá um passo atrás nesse sentido.
Ainda que não haja data definida para pendurar as chuteiras, ele já admitiu que não aguenta atuar por muito mais tempo. No Flu, ele é soberano na linha defensiva e, ainda que não tenha mais a vitalidade de antes, se sobressai nos "atalhos" de quem já percorreu diferentes escolas do futebol e disputou quatro Copas do Mundo.
O ‘Monstro’, apelido que recebeu, precisa lidar com dores frequentes no joelho e recorre a analgésicos para controlá-las. Além do cansaço, o problema crônico faz com que ele não esteja sempre em campo. Para tê-lo inteiro, a comissão técnica precisa definir qual jogo é prioridade.
— Um jogador entre 30 e 40 anos consegue continuar evoluindo em força, potência e, principalmente, transferir isso para ações de campo. E consegue se igualar e ultrapassar muitos atletas mais jovens na parte física. Hoje, conseguimos manter um atleta com níveis de intensidade ideais para a prática do esporte, e o decréscimo muitas vezes será na quantidade de vezes que ele conseguirá repetir essas ações ou mantê-las em jogos consecutivos. Por isso, o controle de carga e a minutagem desses atletas é determinante para sua longevidade e performance — explicou o preparador físico.
Uma prova desse controle de carga está na quantidade de jogos disputados pelo camisa 3 em 2026: são 22 jogos até agora, oito pelo Fluminense e 14 pelo Porto, seu último time. Thiago Silva também é o terceiro jogador mais velho a jogar pelo Brasil, atrás apenas de Djalma Santos e Daniel Alves.
Mas, para chegar até aqui, um caminho precisou ser percorrido. Quando a aquisição de câmaras hiperbáricas - que ajudam o corpo a absorver mais oxigênio através dos pulmões e aumentar a circulação sanguínea - passou a ser realidade entre os atletas de futebol, Thiago Silva investiu 25 mil dólares (R$ 130 mil na conversão atual) do próprio bolso para ter uma em casa.
Isso é algo que nem todo atleta prioriza e que jovens se surpreendem. Foi o caso do volante Andrey Santos, hoje no Manchester United, quando visitou o zagueiro em Londres.
— Quando o Andrey veio na minha casa, ficou pasmo. Eu falei: ‘Você acha que estou nesse nível porque me chamo Thiago Silva?’ Ele viu meu chefe de cozinha, os equipamentos de recuperação, o cuidado com o sono. Ele entendeu o preço a pagar. Tenho orgulho de influenciar esses jovens, de incentivá-los a se preparar melhor para prolongar suas carreiras — contou o jogador à France Football, em dezembro de 2025.
"A feira foi minha academia quando criança"
Um dos pontos de maior cuidado sugerido a quem deseja ter longevidade, independentemente do esporte, é investir na musculação. Afinal, músculos são o que sustentam o corpo na terceira e na quarta idade.
Hulk é um bom exemplo. O atacante tricolor completou 40 anos neste ano e vive grande momento com a nova camisa, depois de deixar o Atlético-MG, onde se tornou ídolo. São 15 jogos até agora, sete gols e quatro assistências.
Assim como Thiago Silva, Hulk é referência no cuidado no dia a dia. Tem uma equipe multidisciplinar no entorno e ainda pratica outros esportes nas horas vagas. É comum vê-lo jogar tênis e correr ao lado da esposa — no último fim de semana, inclusive, completou uma prova de 10 quilômetros de distância em corrida promovida por ele em Belo Horizonte, a "Hulk Run".
Isso quer dizer que Hulk, mesmo que deixe tudo em campo, sempre se mantém ativo na hora do descanso. Mais uma prova de que não há uma fórmula pronta para se manter em alta. A necessidade de manutenção de controle de carga do camisa 7, por exemplo, é menor do que a de Thiago Silva.
— As respostas dos atletas são cada vez mais individuais, o que funciona para um, não necessariamente vai funcionar para o outro (...). A ciência continua a evoluir e hoje os atletas cada vez mais jovens estão criando essa consciência, então acredito que num futuro próximo iremos ver cada vez mais atletas performando com mais idade.
No caso do atacante, é uma questão de genética. A dele, privilegiada, e que contou com trabalho diferente na adolescência para criar a famosa memória muscular.
— Meu pai me deu o apelido. Eu era forte. Sempre fui fortinho, tinha as pernas meio tortas. Comecei no futsal, e algumas pessoas me chamavam de Romário porque jogava com a camisa 11. Não tem nada a ver com o futebol, mas, por eu ser baixinho e ter as pernas tortas... Depois comecei a trabalhar com meus pais, pegava muito peso, e isso foi me dando mais força. Costumo dizer que a feira foi minha academia quando criança. Depois tive a felicidade de espichar um pouquinho, porque meu pai é mais baixo. Acho que foi isso — disse ele ao ge.
Ou seja, não há uma fórmula única para explicar a longevidade dos craques tricolores. Genética, disciplina, histórico de lesões, rotina, investimento, entre outros, entram em uma conta que muda de jogador para jogador. Hulk, Thiago Silva e Fábio encontraram caminhos diferentes para chegar à casa dos 40 ainda competitivos. E mostram que envelhecer não significa deixar de performar.
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