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Conheça o ex-Corinthians que luta Kung Fu, fala quatro idiomas e foi convocado pela seleção do Líbano
Defensor de 19 anos atua no Como 1907, da Itália, e passou pelas categorias de base do Parque São Jorge entre 2021 e 2023: "Moldou a minha personalidade"
| GLOBOESPORTE.COM / VITOR CHICAROLLI
— Não vejo sentido em voltar para o Brasil, quero continuar na Europa.
Imagina só um garoto de 19 anos falar quatro idiomas, ter três nacionalidades, estar próximo de conquistar a faixa-preta no kung fu e ainda ser convocado para uma seleção profissional. Essa é a história do zagueiro João Gabriel, que passou pela base do Corinthians e atualmente defende o Sub-20 do Como 1907, da Itália.
Nesta Data Fifa, o jovem, que ainda não disputou uma partida profissional na carreira, ganhou a primeira oportunidade de defender a seleção principal do Líbano.
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Filho de mãe italiana e pai libanês, João Gabriel nasceu no Brasil e carrega no passaporte as três nacionalidades. Ele contou ao ge que a ligação com o Líbano vem do avô paterno, que deixou o país cedo e se mudou para o Brasil.
— A parte italiana vem pela minha mãe. Eu sou ítalo-brasileiro-libanês, tenho as três nacionalidades. A parte do meu pai vem do Líbano. Meu avô veio de lá e, aos 19 anos, fugiu para o Brasil por causa da guerra.
A trajetória com a seleção libanesa começou antes da primeira convocação para o time principal. O jogador já havia defendido o país no Sub-20 e ajudado a equipe a se classificar para a Copa Asiática da categoria, que será disputada em março de 2027, na China.
— Eles (membros da federação) estão procurando a diáspora libanesa. O objetivo é ir para a Copa do Mundo de 2030. Então, foram atrás de jogadores de alto nível para representar a seleção libanesa.
— Com o profissional, é a primeira vez. Minha primeira convocação de base foi agora em março, quando fui jogar as eliminatórias da Copa Asiática Sub-20. Eram 18 anos que o Sub-20 do Líbano não ia para essa competição, foi a terceira vez na história. Vem sendo uma experiência muito boa.
O Líbano fará dois amistosos nos próximos dias. Na quinta-feira, enfrenta as Maldivas, no Quirguistão. Na sequência, no dia 4, permanece no país asiático para encarar os donos da casa.
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João Gabriel chegou à base do Como em 2024, depois de defender a também italiana Roma. Antes da experiência na Europa, porém, passou pelas categorias de base do Corinthians entre 2021 e 2023.
O defensor entende que, apesar da experiência no futebol europeu, foi o time brasileiro que moldou sua personalidade dentro de campo.
— Foi o time que fiquei mais tempo, uma experiência muito boa. Moldou muito a forma na qual eu jogo e a minha personalidade dentro de campo. No Corinthians, é muita garra, força de vontade e agressividade. Não falo agressividade de violência, mas a forma de jogar e abordar a partida, além de jogar sob pressão.
— Querendo ou não, você tem pressão de dirigente, de treinador e torcida. Isso ajuda a jogar no alto nível. Quando cheguei na Itália eu senti um pouco a diferença em relação a isso. Até hoje meu modo de jogo é muito agressivo. Parto para cima, justamente pelo Corinthians.
— Ter passado pela base do Corinthians é um privilégio. Nesses quatro anos eu fiz inúmeras partidas e a maior parte delas como titular. Foi uma bagagem excelente. Sou eternamente grato. Se tivesse feito base em algum outro lugar, talvez não teria o sucesso que tive na Roma e agora no Como.
João jogou ao lado de nomes já conhecidos pela torcida corintiana, como o volante André, o meia Dieguinho e o atacante Gui Negão.
Hobby, formação e conhecimento
João foge do padrão na profissão e chama atenção pelo que faz quando está longe dos campos de futebol. Desde a infância, pratica kung fu e tem a esperança de conquistar a faixa-preta em dezembro deste ano.
— Eu tenho feito aula uma vez por semana, online, e continuo fazendo com meu professor. Mantenho o currículo da TSKF, escola em que pratico desde os seis anos. É uma coisa que me ensinou muita disciplina, muita resiliência mental e é uma parte de mim, assim como o futebol também é. Me fez crescer como pessoa. Quero pegar a faixa-preta. Estou uma faixa atrás, na marrom ponta-preta, a nona faixa do currículo. Só que esse exame acontece apenas em dezembro, uma vez por ano. Então tenho que ver quando vou ter férias para voltar ao Brasil e fazer esse exame.
— Me ajuda muito no futebol. Para mim, é uma coisa essencial, que não posso parar de fazer. Me ajuda em todos os aspectos, não somente no futebol: no estado mental, em estar ativo e na concentração. Estar em estado de alerta e conseguir perceber as mínimas coisas. Criatividade, agilidade...
— Ter essa noção corporal, a noção do espaço e entender quanto espaço você está ocupando dentro do campo. O posicionamento no alto nível é essencial. Se você estiver com o corpo posicionado errado em um milissegundo, vai chegar um cara que é bem mais rápido que você, a bola vai estar nas suas costas e você toma o gol. Postura corporal e consciência corporal. O kung fu me ajuda muito com isso. Em uma luta, você tem que antecipar o movimento que seu adversário vai fazer. Até esse movimento de antecipação ajuda muito dentro do campo, porque você precisa antecipar a jogada que seu adversário vai fazer.
Além das atividades no tatame, o defensor brasileiro também tem facilidade para aprender línguas. Apesar de ainda não falar árabe para se comunicar com os companheiros da seleção libanesa, João já domina português, espanhol, inglês e italiano.
— Não sei árabe, tenho que aprender. Eu falo português, italiano, inglês e espanhol. Meus pais são médicos e sempre foram bem rigorosos com os estudos. Estudei no Miguel de Cervantes, onde aprendi espanhol e inglês muito cedo. Desde os seis anos, eu fazia espanhol todos os dias e inglês três vezes por semana. Daí vem essa facilidade com línguas. Fui exposto a esse conhecimento desde pequeno, e isso me ajuda até hoje. Até para aprender italiano eu demorei pouco tempo.
— Essa formação me ajudou a criar muitos hábitos bons em relação aos estudos. Tanto que agora estou vendo de começar uma universidade. Converso com meus pais em relação a isso, mas preciso entender como vai ser a rotina depois de começar a faculdade, juntando com futebol e treinos.
Confira a entrevista com João Gabriel na íntegra:
Relação com a comissão técnica da seleção do Líbano
— O técnico era zagueiro, uma lenda da Argélia. Jogou duas Copas do Mundo. O segundo mister, como a gente chama, também é argelino e jogou 12 anos na Itália, inclusive no Milan. São caras com muita bagagem. Além de ajudarem no projeto da seleção, me ajudam individualmente. Eles entendem muito de futebol, principalmente por terem sido defensores, e estão me dando esse foco individual maior. Assistiram aos meus jogos no Como no começo desta temporada e vão me podando nos detalhes. Isso é muito legal.
Rotina na Data Fifa
— O Líbano não tem a infraestrutura necessária para fazer estágio e acabou se transferindo para o Catar para os períodos de treinamento. É muito quente. Durante o dia, fica 42 graus, e a gente treina à noite, quando ainda está 38. Não muda muito, é uma sauna o dia inteiro. A rotina está sendo boa e espaçada. Depois do café, fazemos academia, almoçamos e temos tratamento com o fisioterapeuta. Estou até me acostumando com isso, porque no profissional é totalmente diferente da base. É outra estrutura, outra cabeça. À tarde, temos tempo livre até o treino. O centro de treinamento é muito bom, a infraestrutura é excelente.
— Esse hotel que estou é uma brincadeira. São três palácios, cada um com três andares, e falaram que é o pior hotel do Catar. Tudo feito de ouro, coisa de louco. Outro nível. A infraestrutura deles aqui em Doha mudou muito depois da Copa de 2022, seja no futebol ou no turismo. É outra cultura e outros costumes. É muito legal aprender e interagir.
Chegada na Roma
— Desde pequeno eu sempre falava para os meus pais: “Quero jogar na Europa'. Para mim, foi um sonho realizado. Quando meu empresário trouxe a proposta, falei na hora para ir embora. Ter a cidadania italiana me permitiu ir como menor de idade e ter essa oportunidade cedo. Eu já cheguei falando italiano. Não fluentemente como falo agora, mas conseguia me desenrolar. Foi muito boa e muito rápida a adaptação.
— Passei por três categorias na Roma, além do profissional, onde treinei com Mourinho e De Rossi. Treinava com o Sub-17, Sub-18, Sub-19 e o profissional. No meu período de um ano na Roma, treinei em quatro categorias diferentes. Isso me ajudou muito na adaptação. Mesmo tendo muita informação nova e quatro treinadores diferentes, eu conseguia juntar tudo e fazer o que precisava em cada categoria. Isso me ajudou a fazer uma transição mais rápida.
— Foram quatro treinos com o Mourinho e acho que cinco ou seis com o De Rossi. Ele orienta bastante. Não tive uma conversa pessoal, era mais cumprimento e entender o que tinha que ser feito durante o treino. Treinei com Dybala, Lukaku, El Shaarawy, Mancini e Pellegrini, mas os dois maiores nomes eram Dybala e Lukaku. Marquei os dois. O Lukaku era brincadeira, não dava. Era um cara gigante, não dava para pôr o corpo nele. E ele fala português, então era muito legal me comunicar em português. E o Dybala... Você olhava para o lado e ele sumia. Um segundo e ele sumia, não conseguia ir atrás. São dois jogadores fora da curva. Uma desatenção e o cara já consegue fazer uma jogada que muda o rumo da partida.
Diferenças entre a base no Brasil e na Itália
— O treino é diferente. No Brasil, pelo Sub-15 e Sub-17, eram três blocos, com duração média de uma hora e meia. Hoje, por exemplo, faço duas horas e meia de treino no Como. Todos os dias, claro, com exceção da véspera de jogo. Quando cheguei à Roma, a estrutura era mil vezes melhor que a do Corinthians. A Trigoria também é dividida entre base e profissional, mas muitas coisas que a base utiliza também são usadas pelo profissional. Então, tínhamos acesso a muitas coisas e a estrutura era realmente muito boa.
— O alojamento do Corinthians tinha quatro moleques por quarto. Na Roma, eram 40 e cada um ficava em um quarto. Você tinha seu quarto privado. Para mim, isso era uma diferença total. A estrutura era muito melhor na Roma do que no Corinthians.
Transferência para o Como 1907
— Saí da Roma, que tinha o direito de compra, mas acabou não exercendo a opção, e voltei para o Corinthians. Na mesma janela de transferências, o Como me comprou. Tenho contrato com eles até 2028. Eu não queria voltar para o Brasil. Depois que você sente o gostinho da Europa, você não quer voltar. Você vê que o nível é diferente, que vai ter mais oportunidade de crescimento e de desenvolver o futebol. Para um zagueiro, principalmente, a base italiana é perfeita. É um futebol muito voltado para a tática defensiva, no qual você se desenvolve cada vez mais. Você tem mais ferramentas para evoluir.
— Tinha o Como e outros três times italianos interessados, mas o Como me chamou e contou o projeto. Quando cheguei, na temporada 2024/25, eles estavam na Primavera 2, que é o Sub-20 da segunda divisão, e queriam subir para a Primavera 1. Conseguimos isso na temporada passada. Esse era o projeto, ainda mais com o crescimento do Como. Sou o primeiro jogador libanês da história a jogar a Champions League Sub-20. É muito legal. A gente agarrou esse projeto, e ele vem dando bons frutos. É uma ascensão muito rápida. Às vezes, até me impressiono com a velocidade que as coisas estão acontecendo. Há cinco anos, estavam na Série D. Cinco anos depois, estão na Champions League.
Planejamento para jogar em outras seleções no futuro
— A seleção da Itália me sondou quando eu estava na Roma e também em dezembro do ano passado, quando já estava no Como. Eles chegaram a pedir documentos porque existe uma diferença. Eu não nasci na Itália, sou italiano de sangue. Eles precisavam desse documento comprovando isso, mas nunca houve uma convocação.
— Por serem apenas amistosos, eu ainda posso jogar pela Itália, tanto no Sub-20 quanto no profissional. No Brasil é a mesma coisa. Se você jogar três partidas oficiais por uma seleção profissional, fica vinculado àquela seleção e não pode mais defender outra.
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