Brasil/Mundo
Mamba-verde “fantasma' reaparece após mais de 100 anos
Espécime coletado em São Tomé em 1885 foi reencontrado em museu na Polônia e pode ajudar a esclarecer se a cobra pertence a uma espécie conhecida
| ÚLTIMO SEGUNDO / NATHáLIA FONTESNATHáLIA FONTESFORMADA EM JORNALISMO PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA (UFJF), COM EXPERIêNCIA EM GESTãO DE REDES SOCIAIS E PRODUçãO DE REPORTAGENS. AO LONGO DA CARREIRA, COLABOROU COM VEíCULOS COMO TRIBUNA DE MINAS
Uma cobra preservada em um pote de vidro pode ajudar a resolver um dos mistérios mais antigos da história natural de São Tomé e Príncipe, país insular localizado no Golfo da Guiné, na costa oeste da África. Um espécime de uma suposta mamba-verde de São Tomé, considerado perdido por décadas, foi reencontrado em uma coleção científica na Polônia.
A descoberta permite que pesquisadores voltem a analisar o animal mais de um século depois de sua coleta e tentem responder a uma pergunta que permanece sem solução: a cobra encontrada em São Tomé pertencia a uma espécie de mamba já conhecida ou poderia representar uma população própria das ilhas?
O caso ganhou destaque após a publicação, em abril de 2026, de um estudo na revista científica Annales Zoologici. A pesquisa descreve a redescoberta e a reavaliação do espécime, que estava no Museu e Instituto de Zoologia da Academia Polonesa de Ciências, em Varsóvia.
A história também foi detalhada pela Discover Wildlife, que chamou o animal de uma “mamba-verde fantasma' e explicou que o mistério envolvendo a serpente já dura mais de 150 anos.
O espécime foi coletado pelo botânico e naturalista português Adolfo Frederico Möller durante uma expedição à ilha de São Tomé, em algum momento entre 23 de maio e 25 de setembro de 1885.
Segundo o estudo, Möller trabalhava para os Jardins Botânicos da Universidade de Coimbra, em Portugal, e foi enviado à ilha para coletar exemplares de história natural. Embora seu trabalho fosse principalmente relacionado à botânica, ele também reuniu animais.
A serpente acabou sendo examinada pelo zoólogo russo Jacques Vladimir von Bedriaga, que publicou uma descrição do animal no fim do século XIX.
O problema é que a identificação nunca foi consensual.
Bedriaga classificou a cobra como Dendroaspis angusticeps, conhecida em inglês como mamba-verde-oriental. Outro zoologista da época, o português José Vicente Barbosa du Bocage, discordou e considerou que o animal poderia ser uma mamba-de-Jameson, espécie conhecida pelo nome científico Dendroaspis jamesoni.
Outro pesquisador chegou a propor que o animal pertenceria a um gênero diferente.
A dificuldade aumentou porque os exemplares históricos desapareceram.
De acordo com o estudo publicado em Annales Zoologici, três exemplares de mambas-verdes coletados em São Tomé no século XIX chegaram às mãos de naturalistas europeus.
Dois deles foram destruídos durante acontecimentos relacionados à Segunda Guerra Mundial. O terceiro, justamente o exemplar associado à descrição de Bedriaga, teve seu paradeiro desconhecido durante décadas.
Isso impediu que pesquisadores modernos voltassem a examinar os animais e comparassem suas características com as de outras espécies.
A situação mudou quando pesquisadores que revisavam coleções de répteis de São Tomé e Príncipe encontraram o exemplar em Varsóvia.
O animal estava preservado em um recipiente e identificado pelo número de catálogo MIZ 73634.
A nova análise não encerrou completamente o mistério, mas trouxe uma pista importante.
As características morfológicas do exemplar apontam para uma possível relação com a mamba-verde-ocidental, conhecida cientificamente como Dendroaspis viridis.
A espécie é reconhecida como válida em bases taxonômicas internacionais e é encontrada na região oeste da África.
No entanto, os pesquisadores destacam que a análise morfológica não consegue determinar sozinha se a população de São Tomé seria exatamente a mesma espécie encontrada no continente ou se haveria diferenças que poderiam ser identificadas por análises genéticas.
Por isso, a descoberta não significa que uma nova espécie de mamba foi confirmada. Ela significa que os cientistas finalmente recuperaram uma peça fundamental para investigar essa possibilidade.
Essa é justamente uma das principais perguntas que continuam abertas.
O estudo apresenta algumas possibilidades: a mamba de São Tomé poderia ser uma população de Dendroaspis viridis que chegou à ilha; poderia representar um grupo com diferenças genéticas suficientes para ser considerado outro táxon; ou os registros históricos poderiam não representar uma população estabelecida atualmente.
Os próprios pesquisadores também levantam outra questão, será que a mamba ainda existe em São Tomé ou simplesmente é uma espécie extremamente difícil de encontrar?
A ausência de novos exemplares coletados recentemente dificulta a resposta.
São Tomé é uma ilha oceânica e fica distante da costa continental africana. Por isso, a presença histórica de uma grande serpente levanta questões sobre como ela teria chegado ao local.
Uma das hipóteses discutidas pelos pesquisadores é a possibilidade de animais terem sido transportados acidentalmente por fenômenos naturais, como correntes marítimas, embora isso ainda seja uma hipótese e não uma explicação comprovada para a mamba.
O próprio estudo cita outro caso para mostrar que a chegada de animais à ilha pelo mar não é necessariamente impossível, já que um crocodilo-do-Nilo foi registrado em São Tomé em 2021, com a possibilidade de ter vindo da costa do Gabão.
As mambas-verdes pertencem ao gênero Dendroaspis, grupo de serpentes da família Elapidae.
São cobras venenosas, geralmente associadas a ambientes arborizados, e algumas espécies passam boa parte do tempo em árvores. A mamba-verde-ocidental ( Dendroaspis viridis), por exemplo, é descrita como uma serpente rápida e predominantemente diurna, com hábitos arbóreos ou semiarbóreos.
O nome “mamba-verde' pode causar confusão porque não identifica uma única espécie. Existem diferentes espécies do gênero Dendroaspis, com distribuições geográficas distintas.
Em zoologia, um espécime preservado pode ter um valor científico muito maior do que simplesmente representar um animal morto há décadas.
Ele funciona como uma espécie de registro físico da biodiversidade de uma determinada época.
Quando pesquisadores encontram um exemplar histórico, podem medir seu corpo, analisar características da pele e das escamas, comparar a anatomia com outros animais e, quando o material permite, tentar obter informações genéticas.
Isso é especialmente importante em ilhas, onde o isolamento geográfico pode favorecer o surgimento de populações com características próprias.
No caso de São Tomé, esclarecer a identidade da cobra pode ajudar os cientistas a reconstruir a história da fauna da ilha e entender como determinadas espécies chegaram ao arquipélago.
Não há confirmação de uma população atual de mambas-verdes na ilha.
O fato de um exemplar histórico ter sido reencontrado não significa que existam atualmente dezenas ou centenas de cobras da espécie em São Tomé.
Essa distinção é importante, uma vez que o estudo recuperou um animal coletado em 1885, mas ainda não há uma confirmação recente de uma população de mambas-verdes vivendo na ilha.
Os pesquisadores apontam justamente a necessidade de novas investigações para descobrir se o animal representa uma população que sobreviveu, uma ocorrência histórica isolada ou uma linhagem que desapareceu.
O reencontro do espécime resolve apenas uma parte do quebra-cabeça.
Agora, os pesquisadores têm novamente acesso ao animal que durante décadas foi considerado perdido. A análise morfológica aproximou o exemplar da Dendroaspis viridis, mas questões sobre sua origem e sua relação genética com as populações continentais continuam abertas.
Por isso, a “mamba-verde fantasma' de São Tomé continua sendo um caso singular para a ciência.
Se novas análises conseguirem esclarecer sua identidade genética, o animal poderá finalmente revelar se a ilha abrigou uma população distinta de mambas ou se os antigos registros correspondiam a uma espécie já conhecida no continente africano.
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