Eleições 2026: A urna não resolve tudo. Mas é nela que começa a cobrança

| JOSé CâNDIDO / CAMPO GRANDE NEWS


Congresso Nacional: escolha de deputados e senadores será decisiva para impor limites ao poder, enfrentar privilégios e recuperar a confiança nas instituições. (Foto arquivo)
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O Brasil não será passado a limpo por discursos inflamados, promessas de ocasião ou candidatos que descobrem a indignação somente durante a campanha. A mudança começa pelo voto, mas depende da qualidade daqueles que receberão o poder de representar a sociedade.

No dia 4 de outubro, o eleitor escolherá deputados estaduais, deputados federais e senadores, além de governadores e presidente da República. Será uma oportunidade decisiva para renovar o Parlamento e entregar mandato a pessoas comprometidas com reformas que o país adia há décadas. A data consta do calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral.

O Brasil atravessa uma perigosa crise de confiança. Suspeitas, denúncias e relações impróprias envolvendo autoridades precisam ser investigadas com rigor, independentemente do cargo, da toga, do partido ou da influência do acusado. Quando integrantes das instituições são citados em episódios que colocam sua independência sob dúvida, a resposta não pode ser o silêncio corporativo.

Justiça sem transparência deixa de inspirar respeito. Poder sem fiscalização transforma-se em terreno fértil para abusos. E autoridade que se considera acima de qualquer questionamento ameaça a própria democracia que deveria proteger.

Isso não significa condenar alguém sem provas nem atacar o Judiciário como instituição. Significa justamente defendê-lo daqueles que possam usar sua estrutura, seu prestígio ou sua autoridade em benefício próprio. Nenhum poder pode ser intocável. Nenhuma carreira pública pode funcionar como escudo contra investigações. Nenhum cargo pode servir de salvo-conduto.

É nesse ponto que a escolha dos parlamentares ganha importância ainda maior. Deputados e senadores não são eleitos apenas para fazer discursos, distribuir emendas ou aparecer em solenidades. Cabe ao Congresso discutir leis, propor mudanças constitucionais, fiscalizar o exercício do poder e estabelecer limites capazes de proteger a República.

O Senado, especialmente, participa da aprovação de ministros dos tribunais superiores e possui responsabilidades constitucionais diante de eventuais crimes de responsabilidade. Por isso, votar para senador exige muito mais do que simpatia, proximidade ou identificação partidária. Exige avaliar coragem, equilíbrio, independência e compromisso com o interesse público.

O eleitor também precisa desconfiar dos candidatos que prometem enfrentar privilégios, mas passaram a vida usufruindo deles; daqueles que condenam abusos apenas quando praticados por adversários; e dos que transformam a indignação popular em espetáculo eleitoral, sem apresentar uma única proposta concreta.

Passar o Brasil a limpo não significa substituir um grupo de poder por outro. Significa construir instituições submetidas às mesmas regras, capazes de investigar aliados e adversários com igual rigor. Significa acabar com a ideia de que autoridades podem tudo enquanto o cidadão comum paga impostos, enfrenta filas e responde imediatamente pelos próprios atos.

O país precisa voltar a ser levado a sério. Mas respeito não se conquista com frases de efeito. Conquista-se com instituições confiáveis, autoridades responsáveis e parlamentares que não se ajoelhem diante de governos, partidos, tribunais ou interesses econômicos.

No dia 4 de outubro, o eleitor terá nas mãos muito mais do que uma escolha eleitoral. Terá a oportunidade de decidir se o Brasil continuará tolerando privilégios e omissões ou se começará, finalmente, a exigir que todo poder tenha limite, toda suspeita seja investigada e toda autoridade preste contas.



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