Morte de Tancredo Neves: Justiça quebra sigilo médico sobre o caso | G1

Ação foi movida pela família do ex-presidente, que tenta acesso a exames e prontuários de mais de 40 anos atrás. Processo tramitou por uma década; conteúdo ainda não foi tornado público.

| G1 / GABRIELLA BRAZ


Foto clássica mostra presidente eleito Tancredo Neves rodeado por médicos, dias antes de sua morte em 1985 — Foto: Gervásio Baptista/Reprodução
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Há pouco mais de 40 anos, o Brasil festejava um momento histórico: a eleição e a futura posse do primeiro presidente civil, após duas décadas do regime militar.

A internação na véspera da posse – e a morte inesperada do presidente eleito Tancredo Neves em 21 de abril de 1985 – mudou novamente os rumos da política nacional. E, ainda hoje, é cercada de mistérios e até teorias da conspiração.

Uma decisão dada pela Justiça Federal nesta semana pode começar a solucionar essas dúvidas. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região foi unânime ao aprovar que a família de Tancredo tenha acesso a documentos sigilosos sobre a internação no Hospital de Base, em Brasília.

O objetivo é sanar a dúvida da família --- e de inúmeros eleitores da época --- sobre a suspeita de erro médico.

Tancredo Neves foi internado na véspera da posse presidencial com quadro de diverticulite – inflamação na região do intestino grosso. Ele morreu um mês depois, em 21 de abril de 1985.

Com a nova decisão, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), devem liberar prontuários, relação de médicos e outros documentos.

Procuradas pelo g1, as entidades afirmaram que ainda não foram oficialmente notificadas.

Caminho na Justiça

Apesar de a decisão ter chegado apenas em 2026, a busca por explicações começou em 2010, com a publicação do livro "O paciente", de Luís Mir . Com autorização da família, o escritor pesquisou a fundo o período e encontrou falhas nos procedimentos.

A advogada Juliana Porcaro explica que a família pediu aos conselhos que liberassem os documentos, mas a demanda foi negada com base no sigilo da relação médico-paciente. Por isso, o caso foi parar na Justiça.

As hipóteses de erro médico levantadas pelo autor e pelos familiares se sustentam em quatro fatores.

Cirurgia imediata: especialistas ouvidos pelo escritor questionam a decisão de uma cirurgia de emergência. Isso porque os procedimentos contra diverticulite costumam ser eletivos, ou seja, passíveis de agendamento enquanto o paciente segue com outros tratamentos. Técnicas questionáveis: Mais de 30 acompanhantes estiveram na sala de cirurgia durante o procedimento, o que é proibido por razões de segurança. Advertência: Médicos envolvidos no tratamento receberam advertência do CRM-DF. O motivo da notificação, no entanto, segue como um mistério. Falhas na recuperação: O autor acredita que falhas no protocolo de recuperação podem ter contribuído para complicações.

Uma das fotos mais emblemáticas da época é a foto de Tancredo Neves sentado ao lado dos médicos (veja abaixo). Por conta da região da cirurgia, no entanto, ele não poderia ter sido colocado naquela posição.

Após hemorragia e outras complicações, Tancredo foi transferido do Instituto do Coração (Incor) já em estado grave.

"Quando ele veio a óbito, os médicos não tiveram coragem de declarar o óbito, eles chamaram o médico americano [Warren Zapol], que veio ao Brasil e avaliou", conta Juliana.

Novos rumos na história

Para a advogada e porta-voz da família, a divulgação dos dados não é apenas de interesse das pessoas próximas, mas ajuda a contar a "história de uma nação".

"Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse 'algo' que a família quer ter acesso. Quer entender como os próprios médicos do Conselho entenderam a postura dos médicos responsáveis pelo presidente Tancredo Neves", afirma.

Juliana conta que esteve com o ex-presidente José Sarney, que confirma a percepção de que houve negligência por parte da equipe de saúde.

"Ele confirmou que teve esse receio de assumir a presidência, porque foi muito delicado. Ninguém sabia se isso ia ser bem aceito", comenta.

Com a posse de Sarney, vice na chapa de Tancredo, o Brasil iniciou um novo momento na política com a eleição de civis.



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