Receitas
Criaram um filtro que remove a cafeína do café depois de servido; veja como funciona
O princípio é diferente de qualquer coador doméstico.
| CORREIO DO ESTADO / JOãO V. VALENçA
Pesquisadores das universidades de Nova Gales do Sul e de Okayama criaram uma membrana de laboratório capaz de filtrar o café já preparado e retirar parte da cafeína antes do consumo. Até agora, a escolha entre a versão comum e a descafeinada acontecia antes do preparo, não depois.
O princípio é diferente de qualquer coador doméstico, que separa partículas apenas pelo tamanho. A nova tecnologia usa nanofiltração molecular, um sistema que identifica cada substância pela carga elétrica, pelo grau de hidratação e pela afinidade química entre as moléculas.
Como o filtro separa a cafeína
A equipe empilhou camadas bidimensionais de óxido de grafeno e ajustou os poros com alginato de sódio e íons de cálcio. O resultado foi a formação de canais microscópicos que funcionam como corredores seletivos, deixando passar certas moléculas e barrando outras conforme suas propriedades.
A cafeína é uma molécula pesada, mas conseguiu atravessar o filtro com maior facilidade. O tamanho não foi o fator decisivo na filtragem.
O que os testes mostraram até agora
Nos ensaios realizados com café instantâneo comercial, o filtro conseguiu baixar a concentração de cafeína em 47,4%, quase a metade do total. Outros compostos característicos da infusão permaneceram praticamente intactos durante o processo, o que preserva parte do sabor original da bebida.
Ainda assim, a redução é parcial e está longe de equivaler a um descafeinado comercial completo. O projeto segue como protótipo experimental em desenvolvimento. Faltam respostas mais certas sobre a velocidade de remoção da cafeína, a durabilidade, os custos, as variedades de café, a percepção sensorial e a viabilidade em grande escala.
Próximos desafios da pesquisa
Falta avaliar também como o consumidor percebe o sabor após a passagem pelo filtro e se a tecnologia é viável em escala industrial. Sem essas respostas, a aplicação prática em cafeterias ou produtos de supermercado ainda não tem data definida.
O experimento mostra que é possível remover uma substância específica de um líquido já pronto para consumo. Esse é o ponto que diferencia o estudo dos processos tradicionais de descafeinização, realizados antes de o grão virar café na xícara.
O que muda na rotina do consumidor
Até agora, era preciso decidir entre café com cafeína ou descafeinado no momento da compra ou do pedido. Com essa tecnologia, a decisão passa para segundos antes do consumo: a pessoa recebe a xícara pronta e pode passar o café por um filtro rápido se quiser reduzir a cafeína.
Na prática, isso significa que um mesmo lote de café preparado poderia servir a pessoas com preferências diferentes: uma que quer a dose completa bebe direto, enquanto outra, que deseja reduzir a cafeína, passa o café pela membrana. A flexibilidade acontece após o preparo, não antes.
Quando este filtro não funciona como descafeinado tradicional
O filtro reduz a cafeína em 47,4%, ou seja, remove pouco menos da metade. A bebida, portanto, não equivale ao café descafeinado comercial, que tem a cafeína praticamente zerada. O resultado é uma redução parcial, não a eliminação quase completa oferecida pelo café descafeinado de supermercado.
Além disso, ainda não se sabe como a tecnologia se comporta com diferentes tipos de café (coado, espresso, de diferentes origens e torras). Os testes aconteceram apenas com café instantâneo comercial, então aplicar o filtro a outras variedades é território desconhecido por enquanto.
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