Dourados
Morre, aos 85 anos, Roberto Razuk, figura histórica do poder e da contravenção
Ex-deputado comandou negócios, presidiu clube de futebol e foi preso 3 vezes ao longo da vida
| ANAHI ZURUTUZA E HELIO DE FREITAS, DE DOURADOS / CAMPO GRANDE NEWS
Morreu nesta quinta-feira (15) o ex-deputado estadual Roberto Razuk. Ele tinha 85 anos e estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), por causa de uma infecção pulmonar. Não há confirmação sobre a causa exata da morte.
'Roberto vinha recebendo cuidados paliativos em razão de problemas de saúde e lutou até o fim', afirmou a esposa, Délia Razuk.
Aos 84 anos, o ex-deputado estadual Roberto Razuk voltou ao centro de uma investigação sobre a exploração de jogos ilegais em Mato Grosso do Sul. Conhecido pela influência política e econômica construída ao longo de décadas em Dourados, ele foi preso pela terceira vez em novembro de 2025, durante a quarta fase da Operação Successione, que investiga uma organização criminosa suspeita de disputar o controle do jogo do bicho no Estado.
A prisão acrescentou mais um capítulo à trajetória de um personagem que transitou entre mandatos políticos, negócios na fronteira e sucessivos confrontos com a Justiça.
A carreira na política - Nascido em Campo Grande em 7 de março de 1941, Roberto Razuk é filho de imigrantes vindos do Líbano, com origem turca. Foi deputado estadual por dois mandatos, entre 1987 e 1995. Como parlamentar, participou dos trabalhos constituintes que resultaram na Constituição Estadual de 1989. Entre suas contribuições, destacou-se a defesa da criação da Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e da instalação de sua sede em Dourados. Razuk se tornou uma das figuras mais conhecidas da política douradense. Sua influência ultrapassou a própria carreira eleitoral e chegou à família. A esposa, Délia Razuk, foi prefeita de Dourados, enquanto o filho Roberto Razuk Filho (Neno, partido) também chegou à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. A presença de diferentes integrantes da família na política ajudou a consolidar o sobrenome entre os mais conhecidos da região sul do Estado.
Lenda viva em Dourados - Paralelamente à atividade política, Roberto Razuk construiu uma trajetória ligada ao universo dos jogos. Foi uma figura influente durante a expansão do jogo do bicho em Dourados e na região de fronteira com o Paraguai, especialmente entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. No lado paraguaio, chegou a ser sócio de um cassino.
Por muitos anos, Roberto Razuk era citado como uma lenda viva em Dourados. Nos anos 90, quando comandava diretamente o jogo do bicho na cidade, inclusive com transmissão ao vivo dos sorteios em emissoras de rádio local, “seu Roberto' era sinônimo de respeito e também de medo.
Como empresário, político e presidente do Ubiratan Esporte Clube, Razuk organizava festas para profissionais de imprensa e frequentava colunas sociais numa época em que ninguém via a exploração da jogatina como algo ilegal.
Em cada esquina de Dourados havia uma banca do Galo de Ouro. Mesmo depois de ter sido preso e condenado nos anos 2000, comandou nos bastidores as duas eleições da esposa Délia Razuk para a Câmara de Vereadores e depois para prefeita, em 2016. Também atuou como principal conselheiro dela nos 4 meses em que Délia foi prefeita interina, entre 2010 e 2011, após a prisão do então prefeito Ari Artuzi (morto em 2013).
Histórico de prisões - O histórico judicial começou a ganhar repercussão ainda na década de 1990, quando o ex-parlamentar foi acusado de utilizar documentos falsos para obter um empréstimo de R$ 3,5 milhões no Banco do Brasil. O episódio ficou conhecido pela história de uma propriedade rural chamada Fazenda Nabileque, que teria sido apresentada como garantia da operação financeira, mas cuja existência foi contestada.
A suposta fazenda ganhou notoriedade pela expressão de que estaria localizada no 'segundo andar', referência à inexistência do imóvel apresentado como garantia. O caso resultou em condenação pela Justiça Federal em 2003, e Razuk cumpriu pena em regime semiaberto.
Antes disso, em 2002, já havia sido preso. Cinco anos depois, em 2007, voltou a ser detido durante a Operação Xeque-Mate, desencadeada contra a exploração de máquinas caça-níqueis e outros jogos ilegais em Mato Grosso do Sul.
A investigação atingiu empresários e pessoas apontadas como integrantes de esquemas de exploração da jogatina. Em 2014, contudo, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul anulou todas as provas produzidas na Xeque-Mate.
A terceira prisão ocorreu em 25 de novembro de 2025. Nessa última vez, Razuk foi alvo do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), durante uma nova etapa da Operação Successione. A investigação do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) apura a atuação de uma organização criminosa envolvida na exploração de jogos ilegais, corrupção, violação de sigilo profissional e episódios de violência relacionados à disputa pelo controle da atividade clandestina.
Na ocasião, a operação cumpriu 20 mandados de prisão preventiva e 27 de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul. As diligências atingiram endereços em Dourados, Campo Grande, Corumbá, Maracaju e Ponta Porã.
Além de Roberto, os filhos Jorge e Rafael Razuk também apareceram entre os alvos da investigação. O deputado estadual Neno Razuk não foi alvo daquela fase da operação, mas acabou preso depois.
A prisão do ex-deputado também foi interpretada como mais um capítulo do enfraquecimento de antigos grupos apontados como influentes no mercado ilegal de jogos no Estado. Antes dele, outros dois nomes históricos, Jamil Name e Fahd Jamil Georges, haviam sido pegos pela Operação Omertà, iniciada em 2019.
As investigações da Successione surgiram no contexto da disputa por espaços que teriam ficado disponíveis depois das ações contra o grupo ligado à família Name. Segundo o Ministério Público, organizações passaram a disputar o controle da exploração clandestina, inclusive com emprego de violência e armas de fogo.
Da prisão à tornozeleira eletrônica – A última prisão de Roberto Razuk ocorreu em sua residência, na Rua João Cândido Câmara, em Dourados. Na época, a defesa informou que o ex-parlamentar enfrentava problemas graves de saúde, estava acamado e se recuperava de procedimentos cirúrgicos.
Segundo os advogados, Razuk fazia tratamento contra o câncer havia anos, tinha passado por cirurgia para retirada de um tumor e apresentava outras doenças, além de depender de oxigênio. A defesa argumentou que a permanência em uma unidade prisional representaria risco à vida do investigado.
No dia seguinte à prisão, em 26 de novembro de 2025, a juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna autorizou a substituição da prisão preventiva por domiciliar. A decisão considerou o quadro clínico apresentado e teve parecer favorável do Ministério Público.
A medida foi condicionada ao uso de tornozeleira eletrônica e ao cumprimento de restrições, incluindo a proibição de manter contato com outros investigados.
A família informou que o corpo será cremado em São Paulo. Não haverá velório nem cerimônias fúnebres, conforme desejo manifestado por ele.
(*) Matéria alterada para acréscimo de informação às 14h40.
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