A máquina que abastece a campeã: jovem na base da Espanha pode fazer 400 jogos até o profissional

Entenda como o fortalecimento das categorias de base dos clubes da LaLiga gera frutos para a seleção espanhola; 96% dos campeões mundiais vieram das "canteras" de lá

| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO LOIS


Espanha conquistou neste ano a sua segunda Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Hannah Mckay
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Campeã da Eurocopa, campeã da Copa do Mundo e atual líder do ranking da Fifa. São muitos os títulos da atual Espanha, que está de volta à ação nesta Data Fifa. Por trás desse sucesso existe um modelo de formação construído pelos clubes da LaLiga, com investimento e infraestrutura, em um ecossistema com a federação de futebol nacional, que abastece de talentos as seleções, continuadamente.

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A lista de candidatos aos diferentes prêmios da Bola de Ouro 2026 serve de fotografia do momento do futebol da Espanha. Dos 30 concorrentes ao posto de melhor jogador do mundo, seis são espanhóis (20%). É o país com o maior número de representantes. Assim como quatro dos cinco indicados entre os técnicos do futebol masculino.

O sucesso da seleção da Espanha não se restringe à Copa do Mundo de 2026. A equipe conquistou o título da Liga das Nações em 2022/23 e foi vice-campeã do mesmo torneio em 2020/21 e 2024/25. Assombrou o continente em 2024 e ganhou a Eurocopa. No mês seguinte, a geração olímpica faturou a medalha de ouro em Paris.

De acordo com levantamento da Uefa, a pedido do ge, a Espanha conquistou 24 títulos continentais ou mundiais desde 2000, somando equipes do masculino adulto e de base . O trabalho dos clubes da LaLiga na formação e a sintonia com a Real Federação de Futebol Espanhola (RFEF) ajudam a explicar a força da atual seleção.

Dos 26 campeões mundiais com a Espanha, 25 foram formados na base da LaLiga, e de 11 clubes diferentes.

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Organização do futebol de base

Esse sucesso todo é reflexo de décadas de atenção com a formação. A Espanha valoriza a qualificação dos treinadores, com metodologia robusta, pelo menos desde 1990, há quase 40 anos . Os técnicos têm uma estrutura de referência em comum, o que facilita o trabalho com filosofia e base compartilhadas. Isso ajuda na lapidação de talentos.

Outro aspecto que ajuda o desenvolvimento de jogadores por lá é o sistema de competições regular, adequado a cada faixa etária, ao longo de toda a temporada, desde a base até a elite.

— O modelo espanhol não pode ser explicado apenas pelo trabalho de seus grandes clubes. Sua consistência reside em uma rede territorial ampla e interdependente, composta por clubes profissionais e modestos, escolinhas, competições regionais, escolas onde o futebol é uma atividade extracurricular, treinadores e famílias. Uma rede de formação, observação e referência — comentou Abel Merino Orozco, professor de Educação da Universidade de Burgos, da Espanha.

Um garoto na Espanha pode chegar a disputar cerca de 400 partidas entre os oito e os 18 anos, até alcançar o profissional.

Mas até meados da década de 2010, embora a seleção adulta fosse bicampeã europeia e campeã do mundo, não havia estratégia coletiva para o sistema de base, visando desenvolver jovens talentos . A filosofia começou a ser construída em 2015 e, após anos de diálogo com os clubes de 1ª e 2ª divisões, LaLiga apresentou em 2022 o Plano Nacional de Otimização e Melhoria das Categorias de Base.

— A reflexão que fizemos na época foi: não somos ruins. Estamos em boa posição. Somos uma referência para muitos colegas de diferentes países. Mas, se acharmos que isso será suficiente para a próxima década, mais cedo ou mais tarde ficaremos para trás — contou Juan Florit, chefe de projetos de futebol da LaLiga.

O Plano criou uma estrutura coletiva de coordenação, avaliação e compartilhamento de boas práticas, com troca de conhecimento e metas para profissionalizar estruturas, formação de técnicos e cuidado integral dos atletas. A segunda fase do projeto começou em janeiro deste ano, e seu horizonte inicial vai até 2032.

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"O jogador é o projeto"

Um aspecto do Plano é a visão coletiva, de que o avanço geral é bom para todos os clubes. Eles precisam atender aos mesmos critérios e objetivos do sistema de monitoramento da liga. Ao mesmo tempo, LaLiga procurou criar uma estratégia para cada clube.

— Posso garantir a você que, se perguntar a 99% dos diretores das categorias de base dos clubes da LaLiga o que preferem (ver um certo número de jogadores chegar ao time principal vindo da base ou vencer o campeonato sub-15 ou sub-17 contra o maior rival), eles responderão que preferem a primeira opção. O jogador é o projeto. Não os resultados, não as tabelas, não a classificação. O jogador é o projeto — comentou Florit.

Não há um currículo nacional único, cada clube mantém sua metodologia, mas a formação segue, em linhas gerais, três etapas:

do sub-8 ao sub-12: coordenação técnica, confiança com a bola e compreensão básica do jogo; sub-13 ao sub-16: o trabalho tático e cognitivo ganha importância, assim como o treino mais individualizado;e do sub-17 ao profissional: ênfase maior na preparação física e psicológica, com foco na transição para o time principal.

Os clubes vêm melhorando a infraestrutura e o quadro de profissionais das categorias de base, com o apoio da liga espanhola. O ge perguntou à LaLiga o tamanho do investimento na base, mas não houve resposta até o momento da publicação desta reportagem.

E os clubes se conectam com a federação espanhola. Dos 26 jogadores da seleção da Espanha que venceram a Copa deste ano, 25 vieram das categorias de base de LaLiga, de 11 clubes diferentes. A exceção foi o goleiro David Raya, do Arsenal, que começou no UE Cornellà, da Espanha, e depois se transferiu para o Blackburn Rovers.

— A seleção nacional se beneficia, naturalmente, quando os clubes não apenas treinam jovens jogadores, mas também lhes dão tempo de jogo real em alto nível. Acredito que o papel mais importante seja criar uma base sólida e contínua de jogadores já preparados para a elite da competição — afirmou Juan Florit.

LaLiga registrou na temporada passada (2025/26) uma média de 20,1% do total de minutos disputados em seu campeonato por jogadores formados na base dos clubes da Espanha. Foi o maior índice entre as cinco principais ligas da Europa.

Projeto De La Fuente até 2032

A federação de futebol da Espanha renovou o contrato com o técnico Luis de La Fuente até 2032. Vínculo que já havia sido prorrogado em janeiro do ano passado, até 2028.

Luis simboliza a confiança no trabalho de longo prazo da RFEF. Ele chegou na federação em 2013, para assumir o time sub-19. O primeiro título veio em 2015, no campeonato europeu da categoria. Em 2018, ganhou os Jogos Mediterrâneos, com o sub-18. Também passou pelas seleções sub-21 e olímpica antes de alcançar a principal, em dezembro de 2022.

A Espanha é hoje a dona da maior sequência de invencibilidades da história do futebol de seleções, com 38 partidas consecutivas sem perder. Com De La Fuente, a seleção soma 38 vitórias, 10 empates e só duas derrotas, e nesse período conquistou uma Nations League, uma Eurocopa e a última Copa do Mundo.

Três nomes importantes da atual seleção da Espanha participaram da cerimônia de renovação de contrato com De La Fuente: o goleiro Unai Simón, o volante Rodri e o meia Mikel Merino. Os três trabalharam com o técnico nas equipes nacionais de base, assim como outros oito nomes da mais recente lista de convocados.

96% dos convocados da Espanha nesta data Fifa foram formados na base da LaLiga.

"Vocês são a inveja da Europa, e cabe a nós ser a inveja do mundo." Essa foi a mensagem de Luis de La Fuente ao grupo antes da final da Copa do Mundo. A atual seleção da Espanha representa o ecossistema formado por liga, clubes e federação, de fortalecimento das categorias de base .

— Precisamos continuar evoluindo, competir para vencer. O sucesso reside em estar em condições de vencer, em competir. Não nos contentamos com o que conquistamos até agora. O melhor ainda está por vir. Há muitas coisas boas que vamos aproveitar — declarou Luis.



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