Com investimento bilionário, indústria chinesa vira promessa

Se prefeituras e governo já não se entendiam, no Judiciário, desembargador revogou decisão de colega

| CORREIO DO ESTADO / SúZAN BENITES


Indústria de processamento em Maracaju - Arquivo/Correio do Estado
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Cotações

Desde 2015, Mato Grosso do Sul espera receber uma megaindústria de processamento de milho em Maracaju . O BBCA Group, grupo chinês, prometeu investimentos de US$ 1,21 bilhão (convertido hoje em mais de R$ 6 bilhões) e a geração de até mil empregos diretos e indiretos.

A indústria esmagadora planejava processar 200 mil toneladas de milho por ano somente na produção de amido e farelo do cereal. Ainda havia a promessa de produzir ácido polilático (PLA), material utilizado em produtos biodegradáveis, como copos.

Em nota, a prefeitura da Maracaju informou que se reuniu com a diretoria do grupo chinês. 

“A prefeitura de Maracaju informa que no início deste ano foi feita uma reunião on-line com os dirigentes da BBCA. Por conta da pandemia do coronavírus, ficou acordado que assim que a vacinação contra a doença avançasse, tanto no Brasil, quanto na China, eles retornariam a avançar no programa', detalhou a prefeitura.  

Conforme apurou o Correio do Estado, o assunto “frustra' os gestores do governo estadual, já que a promessa era grande e nada foi cumprido até o momento.  

A equipe entrou em contato com os secretários de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro), Jaime Verruck, e de Infraestrutura (Seinfra), Eduardo Riedel, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.  

TRATATIVAS

As tratativas entre o ente federado e o grupo asiático começaram em 2013 com a visita dos representantes chineses ao Estado. No ano seguinte, a BBCA entrou com pedido de licença prévia para instalação em MS.

Em 2015, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) consolidou a parceria do Estado com os investidores do BBCA Group Corporation, responsáveis pela instalação de indústria de processamento de milho e soja.

O acordo de cooperação foi firmado com o grupo chinês e o Banco de Desenvolvimento da China (China Development Bank – CDB), este último sendo o financiador da indústria esmagadora de grãos.  

Na época, o governo estadual se comprometeu a ser proativo e facilitar o desenvolvimento do projeto, disponibilizando todos os documentos para o processo de avaliação dos empréstimos.

No mesmo ano, o então prefeito de Maracaju sancionou por meio da Lei nº 1852 de 2015, a doação de 102 hectares para a empresa.

“Uma gleba de terras pastais e lavradias com denominação de Fazenda Santa Rosa – Gleba B, com área total de 102,3385 hectares, avaliado pela Comissão Permanente de Avaliação de Imóveis no valor de R$ 3,070 milhões, à empresa BBCA Brazil Industrial e Investimentos LTDA', detalha o decreto.

Segundo o texto, a construção do empreendimento teria de ter início no prazo máximo de 90 dias, contados da expedição do Termo de Doação, 15 de dezembro de 2015, e concluí-la no prazo máximo de 24 meses, sob pena de reversão automática da doação do imóvel em questão em favor do município.

OBRAS

Em 2016, o Estado concedeu a licença de instalação, e no ano seguinte as obras foram iniciadas. Ainda em 2017, as obras foram paralisadas, deixando a comunidade e as autoridades na incerteza sobre o futuro do empreendimento.

Com dois armazéns concluídos, um barracão e 30 casas para funcionários. Em 2019, a empresa apresentou cronograma de entrega de cada etapa das obras do complexo industrial, firmando compromisso de que até o fim daquele ano a primeira planta seria concluída.

Ainda segundo a nota da gestão municipal de Maracaju, um ofício foi encaminhado recentemente para os chineses, “solicitando a retomada do cronograma de obras'.  

A gestão do município ainda informou que “aguarda a resposta da empresa'.

Em janeiro de 2020, o grupo chinês afirmou durante feira agropecuária em Maracaju que começaria a produzir amido e farelo de milho a partir de outubro.

Conforme apurou o Correio do Estado, a estrutura construída na cidade foi locada para a Lar Cooperativa Agroindustrial desde o ano passado.

A reportagem tentou entrar em contato por meio dos canais disponibilizados no portal do grupo BBCA, mas os contatos informados estão desativados.  

INDÚSTRIA

De acordo com o projeto, a fábrica de Maracaju seria uma unidade industrial química a partir do processamento do milho e da cogeração de energia.

Segundo informado em 2019, a primeira unidade consumiria US$ 100 milhões em investimentos.

Durante encontro entre empresários chineses e brasileiros em Campo Grande, na época, o engenheiro sênior da BBCA, Leo Yan, disse que os produtos da esmagadora de milho seriam comercializados em território brasileiro.

“Na China, a BBCA tem grandes plantas e lidera o mercado. Nosso investimento é uma aposta no Brasil'. O restante dos investimentos – superiores a US$ 1 bilhão – seriam aplicados na fabricação de produtos químicos voltados à indústria alimentícia e de embalagens.  

A planta ainda atuaria na cogeração de energia. No auge, a estimativa seria processar 1,2 milhão de toneladas de milho. Com capacidade de produção anual de 150 mil toneladas de ácido cítrico, 60 mil toneladas de xarope de maltose, 300 mil toneladas de amido de milho, 60 mil toneladas de dextrose cristalina, 150 mil toneladas de lisina e outros subprodutos relacionados.

A capacidade levaria a chinesa ao topo da produção mundial de ácido cítrico, além de consolidar o grupo como um dos maiores produtores de vitaminas A, B, C e E.

Em uma segunda etapa, os chineses processariam 170 mil toneladas de óleo de soja e 810 mil toneladas de polpa de feijão.



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