Economia
Análise: Bancos privados seguem lucrativos, mas juro alto impõe cautela
| CNN BRASIL
Os balanços do primeiro trimestre dos grandes bancos privados deixaram uma mensagem clara para o mercado: o setor continua altamente lucrativo, mas o ambiente começou a ficar mais desconfortável.
Depois de anos surfando expansão de crédito, inadimplência controlada e margens robustas, Itaú, Bradesco e Santander agora tentam equilibrar crescimento e cautela em um cenário de juros elevados, atividade econômica mais fraca e maior pressão sobre famílias e empresas endividadas.
Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil somaram lucro líquido de R$ 22,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 9,7% em relação ao mesmo período do ano passado.
Na comparação com o fim de 2025, porém, os ganhos praticamente pararam de crescer — um primeiro sinal de desaceleração em um setor acostumado a resultados cada vez maiores.
O movimento aparece justamente em um momento em que os bancos começam a admitir, de forma mais explícita, que o cenário macroeconômico ficou mais difícil.
A combinação entre Selic elevada, desaceleração do crédito e incertezas externas — agravadas pelos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre inflação e juros globais — levou as instituições a adotarem um discurso mais prudente sobre os próximos trimestres.
O Itaú voltou a liderar o setor em rentabilidade. O banco teve lucro líquido recorrente de R$ 12,28 bilhões entre janeiro e março, avanço de 10,4% em relação ao primeiro trimestre de 2025. O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) chegou a 24,8%, o maior nível em mais de uma década.
Mesmo assim, o mercado recebeu o balanço com alguma cautela. A carteira de crédito desacelerou e cresceu 7% em 12 meses, abaixo do ritmo observado no fim do ano passado.
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Embora a inadimplência acima de 90 dias tenha permanecido estável em 1,9%, o banco reconheceu piora nos indicadores iniciais de atraso, principalmente entre pequenas e médias empresas — um segmento que costuma reagir mais rapidamente ao aperto financeiro.
O discurso da administração também mudou de tom. O presidente Milton Maluhy Filho admitiu que o cenário econômico está “pior' do que no início do ano, sobretudo pelos efeitos geopolíticos e pelo risco de juros altos por mais tempo.
Ainda assim, o Itaú sustenta que seu portfólio foi desenhado justamente para atravessar ciclos mais difíceis sem comprometer a rentabilidade.
No Bradesco, o trimestre reforçou a percepção de uma recuperação gradual, mas ainda cercada de desafios. O banco registrou lucro líquido de R$ 6,81 bilhões, alta de 16% em relação a um ano antes, enquanto o ROE avançou para 15,8%, mantendo a trajetória de melhora iniciada em 2024.
A expansão da carteira de crédito perdeu fôlego e ficou em 8% no acumulado de 12 meses. Já a inadimplência acima de 90 dias subiu levemente para 4,2%.
O ponto que mais chamou atenção, porém, foi o aumento do custo de risco, pressionado tanto por um caso específico no segmento corporativo quanto pela piora da carteira massificada.
Na prática, o banco sinalizou que deve operar de forma mais seletiva daqui para frente. A leitura é que o ambiente de crédito continuará exigindo provisões elevadas, especialmente no varejo, o que tende a limitar uma recuperação mais rápida da rentabilidade.
O Santander foi quem mais explicitou o desconforto do mercado com o novo cenário. O banco lucrou R$ 3,78 bilhões no trimestre, queda de 2% na comparação anual e abaixo das expectativas dos analistas.
O ROE recuou para 16%, distante da meta próxima de 20% perseguida pela instituição.
A carteira de crédito praticamente não avançou no trimestre e cresceu apenas 3% em 12 meses. Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias subiu para 3,3%, refletindo uma piora na formação de créditos problemáticos e maior pressão sobre provisões.
O resultado reforçou a percepção de que o Santander está sentindo mais rapidamente os efeitos de um ambiente econômico mais apertado.
Embora o banco ainda consiga sustentar receitas resilientes e controle de despesas, investidores passaram a questionar o espaço para crescimento da lucratividade no curto prazo.
No fim, os três balanços mostram bancos ainda fortes, rentáveis e capitalizados — mas já operando em modo mais defensivo. O crédito desacelera, as provisões começam a subir e a preocupação com inadimplência volta ao centro das atenções depois de um longo período relativamente benigno para o setor.
A questão agora é até que ponto os bancos conseguirão preservar margens elevadas sem reduzir demais o apetite por crédito — justamente em um momento em que empresas e consumidores já começam a sentir mais claramente o peso dos juros altos sobre a economia.
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