'Autocuidado digital': cresce o número de pessoas com perfis ativos e que consomem conteúdo, mas não postam nada; veja os efeitos

Fenômeno, nos convida a repensar como nos relacionamos com a visibilidade digital e quais custos psicológicos estamos dispostos — ou não — a arcar


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Durante anos, as redes sociais operaram sob uma premissa clara: participar significa ser visível. Publicar fotos, opiniões, conquistas ou trechos do cotidiano tornou-se uma norma implícita da presença digital. Em muitos contextos, não fazê-lo pode até ser interpretado como ausência, desinteresse ou desconexão social.

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No entanto, um comportamento que rompe com essa lógica está se tornando cada vez mais comum: pessoas com perfis ativos em redes sociais que consomem conteúdo, interagem de forma privada e permanecem conectadas, mas não publicam nada. Esse fenômeno, conhecido como "zero posting" (publicação zero, em tradução livre), nos convida a repensar como nos relacionamos com a visibilidade digital e quais custos psicológicos estamos dispostos — ou não — a arcar.

Estar nas redes sociais sem se expor

O "zero posting" não significa desaparecer ou se desconectar completamente. As contas permanecem ativas e os usuários respondem a mensagens, participam de conversas privadas e consomem conteúdo de outras pessoas, mas evitam deliberadamente publicações públicas. Em muitos casos, essa decisão está relacionada à sobrecarga emocional e cognitiva gerada pelo consumo digital intenso, um fenômeno amplamente estudado sob o conceito de fadiga das redes sociais.

O excesso de estímulos, notificações, exigências de atenção e expectativas sociais pode, em última análise, sobrecarregar a capacidade de autorregulação de muitos usuários. No entanto, esse cansaço ou fadiga com as plataformas digitais nem sempre leva a uma desconexão total.

Para algumas pessoas, a solução não é abandonar as redes sociais, mas sim redefinir sua abordagem a elas, reduzindo as práticas que geram maior estresse. Um dos principais mecanismos que explicam esse estresse é a constante comparação social.

Ansiedade em relação à avaliação social

As redes sociais tendem a mostrar versões cuidadosamente selecionadas e otimizadas da vida de outras pessoas, o que fomenta percepções distorcidas sobre o sucesso, a felicidade ou o bem-estar alheio.

A isso se soma a pressão para apresentar uma versão idealizada de si mesmo. Postar deixa de ser um ato espontâneo e se torna uma tarefa de gestão da identidade: decidir o que mostrar, como fazê-lo e que imagem projetar. Para muitas pessoas, esse esforço constante acaba corroendo seu senso de autenticidade e controle sobre a própria experiência digital.

Postar também significa se expor ao julgamento alheio. Cada curtida, comentário ou visualização funciona como uma forma de avaliação social. Não é surpreendente, portanto, que surja ansiedade antecipatória em relação ao recebimento de reações.

A expectativa de uma resposta — ou sua ausência — pode gerar inquietação, ruminação e atenção excessiva ao próprio desempenho social. Nessa perspectiva, parar de postar não é indiferença ou afastamento, mas uma forma direta de eliminar uma fonte específica de pressão psicológica.

Autocuidado digital e regulação emocional

É aconselhável evitar interpretações alarmistas. A literatura científica associa o uso intensivo de mídias sociais ao estresse e à ansiedade, mas também aponta que os efeitos dependem do tipo de uso, do contexto de vida e das características individuais. Nem todos reagem da mesma forma, nem todas as práticas digitais têm o mesmo impacto na saúde mental.

Nesse contexto, a ausência de publicações pode ser entendida como uma forma de autorregulação emocional: uma estratégia pela qual os indivíduos ajustam seu comportamento para reduzir estímulos percebidos como excessivos, sem abrir mão completamente dos benefícios da conexão social e do acesso à informação. Essa forma de ajuste se conecta com o aumento de estratégias ativas para proteger a saúde mental, como pausas digitais, redução de notificações ou limitação voluntária da exposição pública.

O conceito de "alegria de ficar de fora" (JOMO, na sigla em inglês) também se encaixa nesse contexto: a alegria de se desconectar na era digital. Abrir mão de estar em todos os lugares ou de mostrar tudo não é necessariamente vivenciado como uma perda, mas sim como uma forma de recuperar o controle, a tranquilidade e o bem-estar. O não postar se encaixa bem nessa lógica: não implica desconexão total, mas sim uma forma de ser sem a obrigação constante de ser visto.

Entre a superexposição e o silêncio

De uma perspectiva sociocultural, esse fenômeno pode ser interpretado como uma reação à cultura da exposição e à lógica da identidade performativa nas redes sociais, onde a visibilidade se torna um valor em si mesma. Essas plataformas não apenas facilitam a comunicação, mas também incentivam ativamente a produção constante de conteúdo e a monetização da atenção.

Nesse contexto, não postar pode ser uma forma de reivindicar espaços de intimidade e afirmar que a experiência pessoal não depende do olhar alheio para ser validada. Essa ideia faz ainda mais sentido quando o não postar é colocado no extremo oposto da superexposição.

Como discuti em um artigo recente, compartilhar demais pode aumentar a vulnerabilidade emocional e confundir os limites entre a vida privada e a pública. Em contrapartida, o silêncio pode funcionar como uma barreira protetora.

Talvez esse silêncio visível não seja uma anomalia, mas sim um sinal de que cada vez mais pessoas estão aprendendo a regular sua presença nas redes sociais, sem permitir que elas definam completamente seu bem-estar ou identidade.

* Oliver Serrano León é diretor e professor do Programa de Mestrado em Psicologia Geral da Saúde, Universidade Europeia

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia aqui o original.



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